Uma esplanada de ciclistas, servidores federais – os indefectíveis, e índios, por Kátia Torres Ribeiro

Contribuição de Kátia Torres Ribeiro para o site do Laboratório. Trata-se de uma manifestação em Brasília, no dia 06/06/2010.

Uma Esplanada de ciclistas, servidores federais – os indefectíveis, e índios, por Kátia Torres Ribeiro

Dia 6 de junho de 2010,

Brasília, na Esplanada, na alameda das Bandeiras, tantas bandeiras, de todos os estados, nos mastros. No chão, as das nações indígenas, acampadas há seis meses no Acampamento Revolucionário Indígena. O pessoal do movimento Rodas da Paz, em prol dos ‘camelos’ e das ciclovias, com suas camisas amarelas e nós, servidores dos órgãos ambientais federais, com dezenas de bandeiras brancas e verdes.

Um grupo eclético mas domingueiramente coeso, afinal de contas, todos resistindo aos tratores na política, nos municípios, nas matas, nas leis, nas pessoas. Não tão coeso, porque havia uma passeata oficial do Ministério do Meio Ambiente, amarela, cheia de camisas de que muito se beneficiaram os índios, e outra branca e verde, a dos grevistas e simpatizantes, dois carros de som, perspectivas um tanto diferentes, e infelizmente, tão pouca imprensa. A Esplanada é palco de todos os discursos e talvez de poucos ouvidos, seja pelo vazio populacional ou pela surdez mesma, pela toada rotineiramente ouvida.

Índios que não falam português, vejam que ainda existem tantos, de quem compramos boneca, colar, bolsa em que cabe celular, segundo um deles, que fala português. Um líder auto didata, o único que sabe português em sua tribo, dando o tom da paixão e da legitimidade no discurso contra Belo Monte. Crianças índias brincando no vasto gramado, com o skate emprestado de minha filha, um carrinho de rolimã assim transformado, tão divertido.

Um dia cinza em Brasília. Tem gente que acha que é dia feio e ilustrativo, mostrando a tristeza “de não ter o que comemorar”, um dia após o dia mundial do meio ambiente. Afinal, ‘lá e vem’, semana que vem, a batalha campal para salvaguardar alguma coisa do Código Florestal da fúria ruralista que domina a comissão de meio ambiente da Câmara dos Deputados e do relator do projeto que de comunista virou tão explicitamente ruralista.

Mas a chuva é fértil no Cerrado, a falta do azul é sinal de umidade e congregação. Foi dia heterodoxo para muitos de nós. Um dia a mais naquele pedaço de Brasil. Onde parece nada acontecer de sólido…embora os pés sintam e os ouvidos ouçam os sussurros das costuras políticas e das sondagens das possibilidades.

E por cima, dando força, o canto de guerra do cacique, espontâneo, legítimo, deixando claro ao mundo o porquê de resistirem, seis meses de acampamento ao sol – a terra é sua vida. Nós ouvindo e amargando uma derrota – a expectativa não correspondida de que a sociedade entendesse e valorizasse, puxa, o tamanho da batalha desenrolada nas Amazônias, Caatingas, BRs 319 e nos escritórios de licenciamento ambiental. No Brasil comemora-se a taxa (esperada) de crescimento de 7%, 5ª economia mundial, integração transcontinental…. somos a pedra no meio do caminho. Lamentamos visão tão pouco estratégica e tão ‘empreiterística’, tanto do mesmo, com as variantes que valem a pena.

Para ter acesso a mais fotos da manifestação clique aqui. Abaixo, segue vídeo da manifestação.

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LASTRO

O Laboratório da Conjuntura Social: tecnologia e território, criado em julho de 1996, no Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano e Regional (IPPUR) da Universidade Federal do Rio de Janeiro, tem, por principal finalidade, a valorização da ação social e dos estudos de conjuntura na pesquisa urbana, no momento em que a reestruturação econômica, apoiada nos fluxos informacionais e em novas orientações administrativas, altera oportunidades sociais, funções metropolitanas e o teor sócio-cultural da vida coletiva. O LASTRO encontra-se organizado em torno de uma proposta de trabalho eminentemente metodológica e transdisciplinar, que inclui o alcance de passagens analíticas, de difícil execução, entre esferas, níveis e escalas da experiência urbana brasileira. No desvendamento de uma metodologia adequada à análise de conjuntura comprometida com a dinâmica urbana, valoriza-se o ângulo da ação, onde outras opções analíticas privilegiam mudanças técnicas e tendências exclusivamente econômicas. Sem abandonar estes caminhos, o LASTRO adota, como seu norte reflexivo, as mutações no tecido social, manifestas através de alterações em representações coletivas dos contextos urbanos e em disputas de oportunidades de integração social. A ênfase na conjuntura corresponde a objetivos analíticos relacionados aos vínculos entre estrutura e ação, aos determinantes especificamente sociais da experiência urbana, à desinstitucionalização de relações sociais e à apropriação social de recursos materiais, técnicos e culturais condensados nos espaços metropolitanos do país

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