Catarse no Rio deve ser aproveitada para mudar cidade, diz sociólogo

Publicado em 01/12/2010

Disponível: http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/838970-catarse-no-rio-deve-ser-aproveitada-para-mudar-cidade-diz-sociologo.shtml

O momento de catarse e de união contra as ações do narcotráfico no Rio deve ser usado como oportunidade para um debate mais profundo sobre as divisões sociais e econômicas na cidade, diz o sociólogo Luiz Antonio Machado da Silva, da Uerj (Universidade do Estado do Rio de Janeiro).

“Como está um entusiasmo muito grande em torno da ideia de que o Rio é nosso, não do crime, é possível abrir um espaço para discutir: ‘nosso de quem, cara pálida?'”, afirma Machado, autor de “Vida sob Cerco –Violência e Rotina nas Favelas do Rio de Janeiro”. Em entrevista à Folha por telefone e e-mail, o sociólogo disse que viu nas cenas da fuga dos traficantes da favela Vila Cruzeiro um salva-se quem puder –“nada que parecesse uma retirada estratégica numa guerra convencional ou de guerrilha”.

Ele acha viável acabar com o uso ostensivo de armas pelos criminosos nas favelas e apoia o projeto das Unidades de Polícia Pacificadora –desde que seja enfatizado o projeto UPP Social, que visa aproximar os moradores dos serviços oferecidos pelo Estado e instituições da sociedade.

FOLHA – Concorda com a avaliação de que os arrastões e incêndios de carros foram uma reação dos traficantes às UPPs e às transferências a presídios federais?

LUIZ ANTONIO MACHADO DA SILVA – Concordo, ao menos indiretamente. A implantação das UPPs, com a estrondosa aprovação capitaneada pela mídia, afetou a rotina econômica do “mundo do crime”. Isso provavelmente atinge sua organização interna, e há uma tentativa de formar uma estrutura oligárquica, o que significaria uma redução do modo pulverizado com que se organizou nas últimas décadas.

Do ponto de vista do combate ao tráfico, é melhor que ele seja pulverizado ou centralizado?

Depende. Há quem diga que foi a organização do PCC que reduziu os crimes violentos em São Paulo. Se a ideia for puramente a redução das mortes, uma oligarquia do tráfico pode ser boa. Se o critério for a densidade de poder, aí é ruim.

A resposta do Estado, com apoio militar, é a correta? É uma novidade ou repete outras ocasiões?

Não há nenhuma novidade na resposta do Estado ao que tem sido definido como provocação, chantagem e até terrorismo. Mas há muita novidade no plano político.

Até a semana passada, as polícias recebiam uma delegação tácita da sociedade para decidir quem participava ou era conivente com o crime. Ao mesmo tempo, eram muito criticadas pelos resultados: corrupção, ineficiência etc.

Nesta semana assistimos à intensa participação da sociedade carioca, ou ao menos dos que podem expressar sua opinião na esfera pública, incluídos setores populares.

Ela está manifestando uma adesão entusiasmada aos métodos tradicionais de “guerra ao crime”. Há sugestões de passeatas, bandeiras do Brasil nas janelas, perguntas sobre se o Bope (Batalhão de Operações Policiais da PM) aceita doações.

Ao mesmo tempo, a continuidade das UPPs tem sido defendida unanimemente, mesmo que seu sentido original –um segundo momento da “guerra”, posterior à retomada dos territórios– tenha agora que dividir espaço com as operações tradicionais.

Essa adesão quase unânime é positiva ou negativa?

A reação catártica que está ocorrendo é compreensível. Essa convergência pode ser a oportunidade de abrir um espaço para a gente tentar recompor o tecido social esgarçado do Rio. Como está um entusiasmo muito grande em torno da ideia de que o Rio é nosso, não do crime, é possível abrir um espaço para discutir: “nosso de quem, cara pálida?”. Dado que a população carioca está longe de ser homogênea, estou convencido de que é a abertura para essa pergunta e para a variedade de respostas a ela que permitirá recompor o tecido social da cidade, em um processo na direção da democratização das relações sociais, políticas e econômicas.

Que impacto lhe causou a imagem-símbolo do momento, dos traficantes fugindo da Vila Cruzeiro ante o avanço policial, parte deles abatida por atiradores?

Acho que vai se transformar em um símbolo da superioridade inquestionável dos recursos institucionais de força. No caso da fuga da Vila Cruzeiro, há vários aspectos a considerar: não havia nada que parecesse uma retirada estratégica em uma guerra, convencional ou de guerrilha. Era a expressão de um salve-se quem puder. Isso levanta questões pouco consideradas. Guerra ou terrorismo –uma atividade pontual, mas orgânica, contra o Estado–, como os acontecimentos foram definidos, suporiam uma resistência maior. As imagens da fuga podem estar indicando que, da parte dos criminosos, há pouca motivação de tomar o Estado de assalto.

Então o sr. acha exagerado falar em terrorismo?

Um exagero absoluto. Não quis dizer antes que não se trata de uma guerra porque é uma discussão antiga, que agora ninguém vai aceitar porque quase 100% das pessoas acham que é. Mas a guerra é uma linguagem antitética em relação à linguagem da cidadania, dos direitos.

É realista a expectativa de que possa haver um controle da criminalidade armada ligada ao tráfico de drogas no Rio?

O que está em questão não é tanto o uso de armas, mas seu caráter ostensivo. Este, se não acabar, pode limitar-se a formas residuais em prazo relativamente curto.

Tem sido dito que a condição de sucesso das UPPs é a existência de policiais não viciados, que tratem a população de modo civilizado. É possível garantir que seja assim em longo prazo?

Há nesse caso uma questão civilizatória tripla.

De um lado, uma compreensão de fundo cristão, porém militarizada nos procedimentos, de que é necessário civilizar os pobres em geral, através da ressocialização de cima para baixo. De outro, uma compreensão de que se deve civilizar a polícia de fora para dentro, por meios técnico-administrativos, jurídicos e de controle democrático da atividade policial.

A terceira compreensão é a do esforço interno de autocivilização –setores da própria polícia propõem uma reforma intelectual e moral capaz de eliminar a privatização da instituição e suas consequências perversas.

Claro que a primeira compreensão deve ser combatida, porque rebaixa os pobres à condição de clientela de uma intervenção social autoritária. As outras duas talvez possam ser combinadas, mas isso depende de um trabalho político sutil e de longo prazo.

O horizonte é de longo prazo. Trata-se de saber, no conflito entre sistemas de valor, moralidades e esquemas de pensamento, qual o que vai emergir como um bom senso com força suficiente para reorganizar o senso comum atual.

O sr. tem alertado para o temor de que as favelas “liberadas” do tráfico passem a ser territórios controlados pela polícia, que dita as regras de comportamento e a população perde qualquer autonomia. Como evitar isso?

Já antes da crise, a prática das UPPs estava se diferenciando. Ao lado da UPP policial, está sendo proposta e começando a ser implementada a UPP Social, a cargo da Secretaria de Direitos Humanos, visando articular a oferta de serviços públicos e outros bens de cidadania com as necessidades e demandas locais.

É claro que isso não elimina a arbitrariedade, mas pelo menos reduz a possibilidade de politização da atividade policial, já que os policiais vinham recebendo reivindicações de acesso aos órgãos públicos.

O fato de as milícias de ex-policiais terem estado fora do foco dessa política pode indicar um futuro em que milícias e polícia pacificadora se confundam?

Tenho ouvido vaticínios nessa direção. Mas acho que eles expressam uma desconfiança radical e indevidamente generalizada de tudo o que se refere à intervenção estatal.

Primeiro porque, embora seja um ponto fora da curva, há uma UPP no Batan [zona oeste], para coibir a atuação da milícia que atuava ali. Segundo porque, embora a iniciativa tenha sido do Legislativo, por meio da CPI das Milícias, elas têm sido combatidas, mesmo com sucesso relativo. Então acho que há um risco, mas não que seja o cenário mais provável no futuro imediato.

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LASTRO

O Laboratório da Conjuntura Social: tecnologia e território, criado em julho de 1996, no Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano e Regional (IPPUR) da Universidade Federal do Rio de Janeiro, tem, por principal finalidade, a valorização da ação social e dos estudos de conjuntura na pesquisa urbana, no momento em que a reestruturação econômica, apoiada nos fluxos informacionais e em novas orientações administrativas, altera oportunidades sociais, funções metropolitanas e o teor sócio-cultural da vida coletiva. O LASTRO encontra-se organizado em torno de uma proposta de trabalho eminentemente metodológica e transdisciplinar, que inclui o alcance de passagens analíticas, de difícil execução, entre esferas, níveis e escalas da experiência urbana brasileira. No desvendamento de uma metodologia adequada à análise de conjuntura comprometida com a dinâmica urbana, valoriza-se o ângulo da ação, onde outras opções analíticas privilegiam mudanças técnicas e tendências exclusivamente econômicas. Sem abandonar estes caminhos, o LASTRO adota, como seu norte reflexivo, as mutações no tecido social, manifestas através de alterações em representações coletivas dos contextos urbanos e em disputas de oportunidades de integração social. A ênfase na conjuntura corresponde a objetivos analíticos relacionados aos vínculos entre estrutura e ação, aos determinantes especificamente sociais da experiência urbana, à desinstitucionalização de relações sociais e à apropriação social de recursos materiais, técnicos e culturais condensados nos espaços metropolitanos do país

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