Troca de Idéias sobre o Complexo do Alemão, no site da UFRJ

Publicado originalmente no site da UFRJ, disponível aqui.

ELISA FERREIRA – dmvi@reitoria.ufrj.br

Aconteceu nesta última terça-feira, 21 de dezembro, uma “troca de idéias” sobre os últimos acontecimentos no Complexo do Alemão, coordenada pela professora Ana Clara Torres Ribeiro, responsável pelo Laboratório da Conjuntura Social: tecnologia e território da UFRJ (Lastro).

Em clima informal, a professora convidou alguns colegas para discursar ao longo da manhã e depois abriu o debate ao público. O evento, que estava marcado para a Sala do Mestrado do Instituto de Planejamento e Pesquisa Urbana e Regional (Ippur), aconteceu no auditório principal.

Segundo Ana Clara, “essa troca de ideias é uma conversa aberta ao público, por isso não há expositores específicos. É um momento para pensar e refletir, sem desqualificar as ações, pelo contrário”. A primeira discussão levantada foi acerca dos antecedentes dessa “guerra”, como os muros, o choque de ordem, as Unidade de Polícia Pacificadora (UPP’s), a disseminação da ideia de guerra e o predomínio do território vertical. Associou-se  esse conceito ao livro de Yves Lacoste, A geografia serve para fazer a guerra.

Defendendo a discussão histórica dos acontecimentos, Pedro Claudio Cunca Bocayuva, organizador da Economia Solidária – projeto com inovadora alternativa de geração de trabalho e renda, uma resposta a favor da inclusão social –, abordou a questão desde a conjuntura brasileira ainda nos anos do presidente Juscelino Kubitschek (1956-1961).

A estudante de geografia Anniele Freitas, membro do Lastro,  apresentou mapas que identificavam as favelas do Rio de Janeiro e indicavam as que já estão com UPP’s, dando ênfase  ao cinturão de segurança na zona sul carioca.

Um dos pontos altos da “troca de ideias” foi a espetacularização feita pela mídia ao longo da invasão ao Complexo do Alemão, seguindo o conceito de sociedade do espetáculo. Segundo a professora Maria Julieta Nunes, “houve uma sedução através de acontecimentos que remetiam a população aos seriados de TV, fazendo com que não soubéssemos distinguir o real do fantasioso”. Essa declaração foi seguida por comentários gerais de que “o cidadão seria apenas um objeto insignificante, que só poderia assistir aos acontecimentos e, nesse caso, aplaudir”. Além disso, Julieta levantou questões como a integração de todas as forças: Batalhão de Operações Especiais (Bope), Polícia Militar, Exército e Marinha; e o chamado à interação, por meio do disque-denúncia.

Outro assunto posto em discussão foi o crescente turismo no local após a invasão. Segundo Ana Paula de Moura Varanda, organizadora da Economia Solidária, “o turismo aumentou, não só da mídia, estrangeira e brasileira, como da população”. Além disso, Ana Paula abordou a questão da insegurança dos moradores da região com a presença de policias, que ainda invadem suas casas. Para ela, é necessário pensar o futuro com questões como a sobrevivência dos que lá moram, a convivência do tráfico e da polícia e a relação com o Estado.

Paulo Carrano, professor da Universidade Federal Fluminense (UFF),  defende que não há mais uma luta do bem contra o mal, já que está tudo associado: política, tráfico e polícia. Por isso, o que aconteceu foi uma violência contra os pobres, já que não havia  política de segurança contra invasões. “A favela sempre foi o outro da cidade, até assustar a cidade principal com incêndios. Ameaçou a ordem, o governador e os planos políticos dos próximos anos”, afirmou o professor.

Em relação a isso, o professor do Ippur, Carlos Vainer, defende que houve ruptura de pactos e, por isso, não pode ser considerada uma ação planejada. “A principal organização criminosa do Rio de Janeiro está dentro do Estado. Sempre há negociações, como foi em Manguinhos para começar as obras do PAC”, relembra Vainer.

O debate seguiu com discussão acerca das reminiscências da ditadura, quando Ana Clara declarou que “hoje vivemos um discurso oriundo da época da ditadura: ou você está comigo ou está contra mim”. A principal indignação quanto a isso, por parte de todos os presentes, é que essa não seria a democracia por que lutaram, durante os anos 60 e 70, para construir.

Antes de o debate ser aberto para a plateia, Paulo Carrano propôs uma questão para a reflexão de todos: “A sociedade brasileira não se pergunta “onde nós erramos?”, nesse caso, o máximo questionado foi: “onde os policias erraram?”, “não está na hora de envolver Estado e cidadão nesse questionamento?”.

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LASTRO

O Laboratório da Conjuntura Social: tecnologia e território, criado em julho de 1996, no Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano e Regional (IPPUR) da Universidade Federal do Rio de Janeiro, tem, por principal finalidade, a valorização da ação social e dos estudos de conjuntura na pesquisa urbana, no momento em que a reestruturação econômica, apoiada nos fluxos informacionais e em novas orientações administrativas, altera oportunidades sociais, funções metropolitanas e o teor sócio-cultural da vida coletiva. O LASTRO encontra-se organizado em torno de uma proposta de trabalho eminentemente metodológica e transdisciplinar, que inclui o alcance de passagens analíticas, de difícil execução, entre esferas, níveis e escalas da experiência urbana brasileira. No desvendamento de uma metodologia adequada à análise de conjuntura comprometida com a dinâmica urbana, valoriza-se o ângulo da ação, onde outras opções analíticas privilegiam mudanças técnicas e tendências exclusivamente econômicas. Sem abandonar estes caminhos, o LASTRO adota, como seu norte reflexivo, as mutações no tecido social, manifestas através de alterações em representações coletivas dos contextos urbanos e em disputas de oportunidades de integração social. A ênfase na conjuntura corresponde a objetivos analíticos relacionados aos vínculos entre estrutura e ação, aos determinantes especificamente sociais da experiência urbana, à desinstitucionalização de relações sociais e à apropriação social de recursos materiais, técnicos e culturais condensados nos espaços metropolitanos do país

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