Ciclovias cidadãs e o wikiurbanismo

Publicado originalmente em Luis Nassif Online, disponível aqui.

No dia 10 de janeiro de 2011, estudantes de Guadalajara demarcaram 5km de “ciclovias cidadãs”, depois de meses esperando que a municipalidade executasse o prometido Plano Diretor de Mobilidade Não-Motorizada. O processo e o resultado foram documentados em um vídeo publicado no youtube:

Onesimo Flores é um estudante de doutorado em Planejamento e Estudos Urbanos no MIT, e escreveu no portal Animal Politico um interessante ensaio sobre o urbanismo bottom-up usando essa iniciativa como exemplo.

O que se pode fazer quando o governo de sua cidade toma decisões que você não compatilha? Como reagir quando centenas de milhões de pesos, de seus impostos, são canalizados para obras sobre as quais ninguém te perguntou? Não estou falando das açõoes de funcionários corruptos ou de administradores ineficientes. Me refiro, outrossim, ao que acontece quando um governante toma decisões dentro da lei para implementar uma visão que não reflete suas aspirações para o futuro. [em tradução livre]

Depois de uma breve discussão sobre as limitações práticas de se “votar com os pés” – se mudar de cidade, Flores apresenta a iniciativa dos cidadãos de Guadalajara:

No 10 de janeiro último esses cidadão decidiram evidenciar que o que falta em Guadalajara é simplesmente um pouco de vontade. Com 12.000 pesos, construíram uma “ciclovia cidadã” com 5 quilômetros de comprimento. Compraram brochas, confeccionaram placas e pintaram as ruas. (…) Há quem considere a “ciclovia cidadã” como um ato de vandalismo, e talvez o seja. (…) O resultado é uma “obra-prima do wikiurbanismo mexicano”, que promove a construção de uma cidade menos excludente e que convida nossos governantes a uma reflexão urgente. [em tradução livre]

Confesso que é a primeira vez que vejo o termo “wikiurbanismo” – embora essa não seja a primeira iniciativa de reapropriação e resignificação dos espaços urbanos pelos próprios cidadãos de que se tenha notícia.

Como responderiam nossas prefeituras, coordenações metropolitanas e governos estaduais se os cidadãos (ou, o que é mais provável, grupos de cidadãos organizados) novamente tomassem custódia da gestão e da construção dos espaços urbanos, ao invés de apenas entregar um cheque em branco aos prefeitos e vereadores? As redes virtuais permitem o intercâmbio constante de informações, parte delas georreferenciadas sob a forma de mashups e mapas colaborativos, contribuindo para uma leitura coletiva do espaço urbano, e talvez estejamos no momento de inflexão da trajetória de nossas cidades: o momento em que as tecnologias de informação e comunicação tornam possível essa leitura aceleram os processos de formação e mobilização de grupos de ativistas.

Há pouco mais de dois anos, uma iniciativa similar, mas muito mais modesta, foi tomada pelo grupo da Bicicletada Curitiba. A Prefeitura Municipal recompensou os esforços do grupo com uma multa por crime ambiental – pichação – e, até hoje, apesar de promessas e compromissos reiterados, ainda não foi produzido, para a capital paranaense, um plano diretor cicloviário.

Publicado por

LASTRO

O Laboratório da Conjuntura Social: tecnologia e território, criado em julho de 1996, no Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano e Regional (IPPUR) da Universidade Federal do Rio de Janeiro, tem, por principal finalidade, a valorização da ação social e dos estudos de conjuntura na pesquisa urbana, no momento em que a reestruturação econômica, apoiada nos fluxos informacionais e em novas orientações administrativas, altera oportunidades sociais, funções metropolitanas e o teor sócio-cultural da vida coletiva. O LASTRO encontra-se organizado em torno de uma proposta de trabalho eminentemente metodológica e transdisciplinar, que inclui o alcance de passagens analíticas, de difícil execução, entre esferas, níveis e escalas da experiência urbana brasileira. No desvendamento de uma metodologia adequada à análise de conjuntura comprometida com a dinâmica urbana, valoriza-se o ângulo da ação, onde outras opções analíticas privilegiam mudanças técnicas e tendências exclusivamente econômicas. Sem abandonar estes caminhos, o LASTRO adota, como seu norte reflexivo, as mutações no tecido social, manifestas através de alterações em representações coletivas dos contextos urbanos e em disputas de oportunidades de integração social. A ênfase na conjuntura corresponde a objetivos analíticos relacionados aos vínculos entre estrutura e ação, aos determinantes especificamente sociais da experiência urbana, à desinstitucionalização de relações sociais e à apropriação social de recursos materiais, técnicos e culturais condensados nos espaços metropolitanos do país

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