Manifesto sobre ataque às bicicletas em Porto Alegre

O Fórum Nacional de Reforma Urbana

A frota brasileira de bicicletas se apresenta como a quinta no mundo, apenas atrás da China, Índia, EUA e Alemanha. No entanto, se observamos as cidades brasileiras veremos que estamos longe de conceder a prioridade devida aos ciclistas que têm a bicicleta como seu modo preferencial para seus deslocamentos.

A maior prova de que esse direito não é respeitado aconteceu  sexta-feira, dia 25 com os ciclistas do movimento Massa Crítica em Porto Alegre – RS. Um carro com dois homens dentro não gostou de ter o trânsito atrapalhado por aquilo que eles provavelmente não consideram um meio de transporte. O motorista usou o carro como arma. Alguns ciclistas foram diretamente atingidos, outros se machucaram pela reação em cadeia: uma bicicleta foi derrubando outra. No fim, 15 pessoas foram parar no Hospital de Pronto Socorro. Os homens fugiram logo depois do ocorrido. As imagens chocam bastante.

Alguns meios de comunicação chamaram a tentativa de homicídio de “acidente”. Não há argumento que convença do uso do termo. Não existe lógica que leve a ele. Não há qualquer questionamento possível de que possa ter acontecido de forma ocasional. É muito importante frisar que o atropelamento foi intencional. O motorista decidiu deliberadamente acelerar e passar por cima dos ciclistas, pois muita gente acha que a bicicleta está atrapalhando o trânsito e não que ela tem direito à cidade.

O FNRU é contra a violência

Violência é, por definição, um comportamento humano que visa ou que pode causar dano à outra pessoa, a qualquer ser vivo ou objeto. É o ato atentatório contra a autonomia, a integridade física ou psicológica e mesmo contra a vida de outro. É um fenômeno que permeia todo o tecido social e assume diferentes formas. É geral e pode ocorrer do nosso lado. Ela pode ser percebida nos bairros nobres das cidades e nas periferias. Violência que tem um efeito destruidor sobre as pessoas e sobre as regras de convívio na cidade. A falta de espaço para outras formas de se movimentar que não seja o automóvel provoca um trânsito violento e interfere no tecido social, prejudica a qualidade das relações sociais e contribui para o quadro da perda da qualidade de vida. Cerca de 80% da população anda ou viaja de transporte público ou bicicleta e só 20% de automóvel particular. Porém, esses 20% ocupam 70% do espaço das cidades. A emissão de gases pelo automóvel o torna o grande vilão ambiental e exige a transformação dos nossos hábitos, além de se ter a privatização do espaço público e ser socialmente injusto.

Enfim, decretada a prisão de atropelador de ciclistas

Centenas de ciclistas protestaram nas ruas de Porto Alegre contra o atropelamento coletivo e o advogado do motorista, o bancário Ricardo Neis, 47 anos, confirmou a internação de seu cliente em uma clínica psiquiátrica ontem. À noite, de acordo com o promotor Eugênio Amorim, a Justiça decretou a prisão de Neis. E o delegado Gilberto Montenegro anunciou que vai indiciar o motorista por tentativa de homicídio duplamente qualificado (por motivo fútil e uso meio que impediu a defesa das vítimas). Ele teria agido com a intenção de matar ao avançar com seu carro sobre um grupo de ciclistas que participava do passeio no bairro Cidade Baixa.

Sexta feira passada 2 mil pessoas se reuniram no Largo Zumbi dos Palmares em Porto Alegre. Às 19h, eles partiram pela Rua José do Patrocínio, para refazer o trajeto da fatídica bicicletada. Logo na saída da manifestação, o grupo começou a ganhar a adesão de simpatizantes – outros ciclistas e moradores do bairro. Quando os manifestantes chegaram à esquina com a Rua Luiz Afonso, ponto onde ocorreu o atropelamento coletivo, o protesto atingiu um caráter simbólico. Centenas deles largaram as bicicletas e deitaram sobre o asfalto, representando os feridos no episódio.

Precisamos remover mitos e preconceitos

Estima-se que no Brasil mais de 20 milhões de pessoas façam uso da bicicleta pelo menos duas vezes por semana para se deslocar ao trabalho. Este número representa apenas um terço da frota declarada pela Abraciclo. Já para a frota de veículos, estima-se que circulem 28 milhões diariamente com uma ocupação de 1,3 passageiros por veículo. Temos, portanto,

Cerca de 30 milhões de viajantes nos automóveis confrontados com 20 milhões de ciclistas. Vejam só o espaço que os automóveis ocupam nas cidades e o espaço dos ciclistas, ainda sem contar que a bicicleta não polui e ajuda a manter nossa saúde.

Então, o grande problema é que a infraestrutura destinada aos ciclistas não estimula nem mesmo os ciclistas tradicionais a fazerem uso da bicicleta com maior intensidade, quanto mais atrair usuários de outros modos de transporte. Por isto, para que ocorra uma mudança significativa na mobilidade por bicicleta no país seria necessário traçar metas ousadas para os próximos anos. Precisamos contribuir para recuperar a qualidade de vida no planeta.

O FNRU defende as viagens de bicicleta e respeita a bicicleta como mais um dos modos ambientalmente corretos para uso no trânsito das cidades.  Defendemos o uso da bicicleta  como meio do transporte e o incentivo do transporte público coletivo. Queremos retomar  o espaço  público  para a mobilidade segura do pedestre que não consegue mais  circular  em boa parte das nossas cidades por falta de vias para o pedestre.

O FNRU defende que não necessitamos de 1 tonelada (peso de um automóvel) para transportar 70 kg (peso de uma pessoa).  A preocupação com a sustentabilidade do planeta deve fazer com que o uso da bike cresça. A chegada da internet  também faz com que  o movimento de ciclistas cresça e de agilidade à organização de pedaladas e manifestações.

Neste sentido o Fórum Nacional de Reforma Urbana declara sua solidariedade ao movimento Massa Crítica e defende que a bicicleta contribui para conter o aquecimento global na mesma proporção dos vários programas de plantio de árvores.

Defende o desafio das cidades com espaços destinados a utilização da bicicleta, para que em um futuro não muito distante, a  utilização da magrela não venha a acarretar tantos acidentes e insegurança como acontece hoje com as motocicletas.

Defende ser fundamental discutir e reivindicar às autoridades atuais de cada região a necessidade de infraestrutura para se pedalar com segurança.

Enfim, somos solidários com o movimento de ciclistas e declaramos  que a sensação de triunfo pessoal de cada cicloativista deve ser valorizada por saber que cada um deles sabe estar fazendo parte de um movimento global de luta pela sustentabilidade urbana, pela redução de poluentes, por cidades mais humanas.

Coordenação Nacional:

UNMP – União Nacional por Moradia Popular,

MNLM – Movimento Nacional de Luta pela Moradia, CMP – Central de Movimentos Populares,

CONAM – Confederação Nacional de Associações de Moradores,

FASE – Federação dos Órgãos para Assistência Social e Educacional

FENAE – Federação Nacional das Associações de Empregados da Caixa Econômica,

FISENGE – Federação Interestadual dos Sindicatos de Engenheiros,

FNA – Federação Nacional de Arquitetos,

Instituto Polis – Instituto de Estudos, Formação e Assessoria em Políticas Sociais,

IBAM – Instituto Brasileiro de Administração Municipal,

IBASE – Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas,

ANTP – Associação Nacional de Transportes Públicos,

COHRE Américas – Centro pelo Direito à Moradia contra Despejos,

AGB – Associação dos Geógrafos Brasileiros, FENEA –

Federação Nacional dos Estudantes de Arquitetura e Urbanismo do Brasil,

CAAP – Centro de Assessoria à Autogestão Popular,

ABEA – Associação Brasileira de Ensino de Arquitetura e Urbanismo,

Fundação Bento Rubião –

Centro de Defesa dos Direitos Humanos,

Observatório das Metrópoles IPPUR/UFRJ/FASE,

Terra de Direitos

ActionAid do Brasil;

Conselho Federal de Assistência Social;

Habitat para Humanidade Brasil,

Fórum Nordeste de Reforma Urbana;

GT Urbano do FAOR – Fórum da Amazônia Oriental;

Fórum da Amazônia Ocidental

Fórum Sul de Reforma Urbana.

 

Publicado por

LASTRO

O Laboratório da Conjuntura Social: tecnologia e território, criado em julho de 1996, no Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano e Regional (IPPUR) da Universidade Federal do Rio de Janeiro, tem, por principal finalidade, a valorização da ação social e dos estudos de conjuntura na pesquisa urbana, no momento em que a reestruturação econômica, apoiada nos fluxos informacionais e em novas orientações administrativas, altera oportunidades sociais, funções metropolitanas e o teor sócio-cultural da vida coletiva. O LASTRO encontra-se organizado em torno de uma proposta de trabalho eminentemente metodológica e transdisciplinar, que inclui o alcance de passagens analíticas, de difícil execução, entre esferas, níveis e escalas da experiência urbana brasileira. No desvendamento de uma metodologia adequada à análise de conjuntura comprometida com a dinâmica urbana, valoriza-se o ângulo da ação, onde outras opções analíticas privilegiam mudanças técnicas e tendências exclusivamente econômicas. Sem abandonar estes caminhos, o LASTRO adota, como seu norte reflexivo, as mutações no tecido social, manifestas através de alterações em representações coletivas dos contextos urbanos e em disputas de oportunidades de integração social. A ênfase na conjuntura corresponde a objetivos analíticos relacionados aos vínculos entre estrutura e ação, aos determinantes especificamente sociais da experiência urbana, à desinstitucionalização de relações sociais e à apropriação social de recursos materiais, técnicos e culturais condensados nos espaços metropolitanos do país

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