Virada Cultural de São Paulo – 2011

Por Raquel de Padua Pereira, integrante do LASTRO-IPPUR/UFRJ e mestranda do IPPUR/UFRJ

Promovida anualmente pela Secretaria da Cultura do município, a Virada Cultural de São Paulo propõe uma série de eventos culturais gratuitos, como shows de música, cinema, artes plásticas, durante 24 horas ininterruptas, em diferentes espaços públicos e privados da cidade.

A maior concentração desta diversidade de atrações está, por sua vez, localizada no centro antigo, num perímetro que abrange as regiões da Praça da Sé, Anhangabaú, República e Luz. A circulação dos ônibus e metrôs funciona durante toda a madrugada, o que favorece a presença da população no evento, a mobilidade e a fluidez do público presente entre os palcos e instalações, que ocorrem simultaneamente.

A produção e curadoria da Virada são reconhecidas pela escolha de atrações de elevado nível de qualidade e diversidade. No caso da música, por exemplo, há palcos para todos os públicos: do rock ao samba, do hip hop ao brega, sem falar dos concertos de música clássica e erudita.

Essa combinação de atrações de qualidade e gratuitas, disponíveis por 24 horas, mais o acesso via transporte público ao centro da cidade – onde, segundo dados da Secretaria da Cultura, circularam aproximadamente 4 milhões de pessoas na última edição realizada nos dias 16 e 17 de abril –  fazem deste evento uma espécie de “carnaval” paulistano. A Virada Cultural, ao longo de suas edições, foi consagrada como uma festa de rua da São Paulo contemporânea. Esta consagração, no entanto, merece uma análise um pouco mais atenta.

São Paulo tem uma imagem que foi construída junto à possibilidade de consumo de cultura de qualidade e com variedade, seja em espaços públicos ou privados. É uma cidade que, com o tempo, foi assumindo uma vocação para a cultura “da noite”. O momento do lazer, para boa parte da população, está apoiado em entretenimento vinculado a atrações culturais.

Boa parte das atrações e ações culturais em São Paulo que outrora aconteciam no centro antigo, atualmente ocorrem em suas áreas adjacentes. Ruas nas proximidades da Avenida Paulista e bairros como a Bela Vista e o Bexiga abrigam casas de shows, teatros, boates e bares, que recebem públicos de diferentes classes sociais e faixas etárias.

Com a transferência de suas funções primordiais (sede do capital financeiro, comercial e cultural da cidade) para outras regiões de São Paulo, o centro antigo vem passando, nos últimos anos, por um processo de revitalização que envolve as esferas governamentais, o capital privado e ONG´s. Através de políticas de planejamento urbano, estes atores buscam, de alguma maneira, recuperar o valor econômico e simbólico que possuía preteritamente o centro antigo, no âmbito da valorização do conjunto de seu espaço e de algumas de suas funções.

Diríamos que a realização da Virada Cultural faz parte da conjuntura de ações políticas e econômicas que visam à revalorização do centro através de ações culturais e que, por isso, pode nos revelar uma face em que as posições do mercado e do governo ficam muito bem marcadas. É evidente, neste sentido, que o evento é um forte chamariz para o chamado turismo cultural (conhecemos várias pessoas que viajaram a São Paulo especialmente para a Virada) e para o movimento da economia da cidade, principalmente para o setor de serviços. O governo municipal, por sua vez, orgulha-se de ter seu nome relacionado ao sucesso do evento.

Outro ponto que merece ser analisado é o da centralidade das ações culturais propiciadas pela Virada. Observamos que muitas das pessoas ali presentes não freqüentam o centro, não o conhecem e não estariam ali se não fosse para desfrutar do concerto de um artista especial. Ou seja, há um lado positivo, no sentido de que, durante estas 24 horas, existe uma apropriação relativa do espaço público do centro. Poderíamos refletir sobre uma re-significação deste lugar em termos simbólicos e afetivos, a partir de novas experiências ali vivenciadas pelas milhares de pessoas. Durante esta última edição, as ruas deste centro estavam realmente bonitas, bem iluminadas, coloridas pelas luzes, pelas instalações, pela multidão e até pela lua cheia que coroou a noite.

Por outro lado, a crítica mais freqüente é que essa beleza e essa apropriação do centro, o acesso livre e gratuito a atrações culturais de qualidade, além, é claro, do funcionamento do transporte público durante a madrugada, tudo isto só acontece durante a Virada Cultural. Então, questões tão caras à cidade, tanto em termos da composição de sua diversidade social e cultural e tão presentes nos debates da sociedade paulistana, assim como nas reivindicações dos movimentos sociais os mais diversos, são aproveitadas pelo poder público a seu favor, na medida em que a carência e a desigualdade de distribuição destas ações culturais e do transporte público persistem na cidade nos outros 364 dias do ano.

O sucesso da Virada é também evidenciado pela forte adesão popular. No evento de 2011, assim como nos anteriores, o centro foi ocupado por uma multidão fortemente heterogênea. O centro foi ocupado por uma multidão fortemente heterogênea. O público se revezava de um palco a outro, tendo que escolher e montar um cronograma das atrações preferidas entre as 952 disponíveis. Havia aqueles que, com fôlego (ou descansando às vezes em alguma praça ou gramado), agüentavam acordados as 24 hs de duração da Virada; outros foram somente para conferir alguma atração específica.

Neste cenário, apesar da forma pública de compartilhamento do espaço do centro, as formas de sociabilidade pareceram não variar muito do que já é tido como típico de tribos urbanas: observamos que as pessoas andavam em grandes grupos de amigos, que se divertiam entre si. A sociabilidade “carnavalesca”, que brinda o contato com o outro, com o desconhecido, aconteceu, para nós, de modo bem paulistano: cada grupo na sua, cordialmente salvo algumas ocorrências devido a brigas e furtos.

No entanto, em algumas situações, observamos que essa interação ocorreu, ainda que forçosamente, nos shows mais concorridos, em que patricinhas, rappers, sambistas, rockeiros, moradores de rua, idosos e jovens casais com crianças cantaram em uníssono.

Enfim, a Virada Cultural é um momento único em termos de diversão, de contato com a diversidade da cidade e com o centro de São Paulo. É, também, momento importante para reflexão acerca do jogo de forças existente entre os atores sociais, políticos, econômicos e da correlação de questões que propiciam a análise crítica da realidade urbana. Acreditamos que o importante é beber de ambas as fontes.

Publicado por

LASTRO

O Laboratório da Conjuntura Social: tecnologia e território, criado em julho de 1996, no Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano e Regional (IPPUR) da Universidade Federal do Rio de Janeiro, tem, por principal finalidade, a valorização da ação social e dos estudos de conjuntura na pesquisa urbana, no momento em que a reestruturação econômica, apoiada nos fluxos informacionais e em novas orientações administrativas, altera oportunidades sociais, funções metropolitanas e o teor sócio-cultural da vida coletiva. O LASTRO encontra-se organizado em torno de uma proposta de trabalho eminentemente metodológica e transdisciplinar, que inclui o alcance de passagens analíticas, de difícil execução, entre esferas, níveis e escalas da experiência urbana brasileira. No desvendamento de uma metodologia adequada à análise de conjuntura comprometida com a dinâmica urbana, valoriza-se o ângulo da ação, onde outras opções analíticas privilegiam mudanças técnicas e tendências exclusivamente econômicas. Sem abandonar estes caminhos, o LASTRO adota, como seu norte reflexivo, as mutações no tecido social, manifestas através de alterações em representações coletivas dos contextos urbanos e em disputas de oportunidades de integração social. A ênfase na conjuntura corresponde a objetivos analíticos relacionados aos vínculos entre estrutura e ação, aos determinantes especificamente sociais da experiência urbana, à desinstitucionalização de relações sociais e à apropriação social de recursos materiais, técnicos e culturais condensados nos espaços metropolitanos do país

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