LASTRO realiza a terceira Troca de Idéias, com debate do tema Segurança

Na tarde de sexta feira 13 de maio de 2011, foi realizada mais uma “Troca de Idéias”, com o tema Segurança. O evento, em grande parte, contribuiu para reflexão à respeito dos mega investimentos em “segurança” que o Estado vem realizando em territórios da cidade do Rio de Janeiro. Tais investimentos aliados à construção, pela mídia, de um discurso de unanimidade na aceitação social desta militarização do cotidiano popular, obedecem à lógica da tentativa de ordenação e controle dos territórios das favelas próximas ao circuito onde se realizarão, entre 2014 e 2016,  grandes eventos esportivos de abrangência mundial.

Foram esclarecidas duas linhas de compreensão ampla do tema da segurança originadas no IPPUR: 1) o cruzamento de dimensões objetivas e subjetivas, individuais e coletivas, recortadas no espaço e no tempo e incidindo sobre a cidadania do ponto de vista da constituição de sujeitos plenos ou como receptáculos de ordenações do convívio; e 2) a consideração da trama de outras idéias que afirmam a mudança na relação entre a compreensão social possível e a ação de poder do Estado enunciadas como segurança, aliadas a outros critérios de abordagem como a identificação de itens que correspondam à garantia da segurança; a que tipo de sujeito se remete a segurança: ao individual ou às diferentes atribuições de coletivo; e em relação a que se objetiva a idéia de segurança considerando vínculos de sociabilidade, dimensões vivas da materialidade do ambiente, e ao ciclo de processos sociais e sócio ambientais .

Várias colaborações foram reunidas ao debate: a relevância da consideração do longo processo de formação do Estado e da sociedade de classes no Brasil e a contemporaneidade do alargamento do contexto material e relacional da insegurança das classes populares para as classes médias; esforços para uma maior especificação conceitual e disciplinar no sentido de compreender o discurso da segurança como pressuposto da insegurança que justifica a existência do Estado, e a aproximação da noção de segurança com a idéia de regulação que vem de fora, e se aplica à experiência popular – e juvenil – em sua relação com as forças de controle social.

A participação social em processos de pacificação foi outra perspectiva de relevância na demarcação de diferenças entre processos sócio territoriais de resgate da paz tidos como modelo na América Latina – como as intervenções políticas em territórios populares em Medellín – Colômbia. Neste sentido, contribuíram para aprofundar o sentido destas diferenças relatos sobre a participação civil e qualificação das relações de representação estabelecidas em determinados territórios populares no estado do Rio de Janeiro.

Foram apresentados relatos sobre o impacto, em Manguinhos, relacionado a ocupação militar do Complexo do Alemão e a instalação de UPPs em favelas da Zona Sul. Nestes, a segurança enquanto atribuição do poder de Estado, foi abordada como decorrente do processo deflagrado pela realização das obras do Programa de Aceleração do Crescimento a partir de anos anteriores, que foi caracterizado pela recusa dos níveis de governo em fazer interlocução com grupos organizados e autônomos, em favor de grupos que se apresentaram mais maleáveis e que, diante da ordem de remoções, acabaram sofrendo assédio do tráfico. Estes grupos foram os grandes beneficiados com as iniciativas na área da habitação.

Por outro lado, em troca de indenizações que propiciaram a remoção de famílias para outras favelas, a destituição de laços sociais e afetivos não passaram desapercebidos. Outro aspecto que resgatou destaque foi a realização de obras e edificação de conjuntos de moradia em terrenos impróprios, mesmo com autoridades alertadas pelos moradores locais, o que se traduziu em grandes alagamentos nas épocas de chuva.

Com a chegada da ocupação militar em outra áreas da cidade, a vida social cotidiana em Manguinhos passou por mudanças enquanto alvo de operações policiais que se tornaram mais freqüentes, silenciosas, com contingentes policiais menores e menos equipados, previsíveis, sem alterações na letalidade, porém com maior preocupação com ocultamento de resultados.

Tratou-se da experiência de participação civil observada nos Conselhos Comunitários de Segurança formados a partir da intenção de intervenção dos níveis de governo em determinados bairros do município de Rio das Ostras, reunindo grupos comunitários e representantes das autoridades de segurança pública,

Foram expostas também duas construções metodológicas em andamento: a) o estabelecimento de relações entre índices de violência, periodização e distribuição da instalação de UPPs na cidade através de mapas, em correspondência com observações sobre mudanças na dinâmica do cotidiano no Morro da Providência sob o impacto da instalação de uma UPP, e b) o sentido da construção de representações sobre os cidadãos pela Prefeitura da cidade do Rio de Janeiro em correspondência com a lógica de operações da Secretaria ( municipal) de Ordem Pública.

A outra linha de abordagem do tema segurança foi a consideração dos meios de comunicação. Aspectos da linguagem e dos interesses envolvidos na construção da imagem do cidadão morador da favela pela mídia passaram pelo crivo de alguns pressupostos críticos a partir do lugar (organização popular). Sob a lente de um “olhar estrangeiro”, um exemplo da máscara jornalística de linguajar coloquial construído a partir da lógica de depreciação do Outro, foi decodificada diante da realização de uma leitura crítica de sua semiótica e semântica.

Outra linha de análise foi a observação, pela recorrência, de códigos de distinção e ou (des)qualificação de expressões de protesto contra a violência, originárias de distintos estratos sociais e territoriais da população. Foram considerados ainda a ampliação do recurso às câmeras de vigilância como adesão das classes médias à mentalidade de controle social, e um questionamento pontual sobre o deslocamento da Secretária de Políticas sobre Drogas da tutela militar para a civil e a possibilidade de alguma mudança da letalidade nos territórios populares da cidade.

Publicado por

LASTRO

O Laboratório da Conjuntura Social: tecnologia e território, criado em julho de 1996, no Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano e Regional (IPPUR) da Universidade Federal do Rio de Janeiro, tem, por principal finalidade, a valorização da ação social e dos estudos de conjuntura na pesquisa urbana, no momento em que a reestruturação econômica, apoiada nos fluxos informacionais e em novas orientações administrativas, altera oportunidades sociais, funções metropolitanas e o teor sócio-cultural da vida coletiva. O LASTRO encontra-se organizado em torno de uma proposta de trabalho eminentemente metodológica e transdisciplinar, que inclui o alcance de passagens analíticas, de difícil execução, entre esferas, níveis e escalas da experiência urbana brasileira. No desvendamento de uma metodologia adequada à análise de conjuntura comprometida com a dinâmica urbana, valoriza-se o ângulo da ação, onde outras opções analíticas privilegiam mudanças técnicas e tendências exclusivamente econômicas. Sem abandonar estes caminhos, o LASTRO adota, como seu norte reflexivo, as mutações no tecido social, manifestas através de alterações em representações coletivas dos contextos urbanos e em disputas de oportunidades de integração social. A ênfase na conjuntura corresponde a objetivos analíticos relacionados aos vínculos entre estrutura e ação, aos determinantes especificamente sociais da experiência urbana, à desinstitucionalização de relações sociais e à apropriação social de recursos materiais, técnicos e culturais condensados nos espaços metropolitanos do país

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