Posso te falar uma coisa?

Por Comando Local de Greve, UFF/Polo de Rio das Ostras, disponível aqui.

Aos que ainda não aderiram à greve.

Em uma de suas últimas campanhas publicitárias, a CREDICARD VISA® – administradora de cartões de crédito vinculada ao Citibanco (Citybank) – apresenta três situações de consumo nas quais, no momento do pagamento, a(o) “caixa” se dirige ao cliente pedindo autorização para fazer um comentário, lançando a delicada pergunta: posso te falar uma coisa? Nas três situações, após autorização do cliente (Pode!, Claro!), a(o) “caixa” aconselha: pagar com VISA é muito melhor!. Logo após o conselho, a voz do narrador da peça publicitária profetiza: as vezes é bom ter um amigo para avisar.

A primeira situação de consumo é de um homem de “meia idade” que exibe cabelos vermelhos “cor de fogo” e que está comprando várias caixas da mesma tintura. A funcionária da loja antes do conselho, olha com surpresa para a coloração dos cabelos do cliente. Na segunda situação, um homem jovem compra uma coroa de flores, comumente usada em funerais, com faixa que traz a frase “Saudades Eternas”, avisando que é para a namorada que chega de viagem naquele dia. Do mesmo modo, a funcionária da floricultura, antes do mesmo conselho sobre a melhor forma de pagamento, olha com surpresa para a coroa de flores. A terceira situação envolve um pai de família comprando quatro passagens para a cidade de Londrina (PR), que justifica ao funcionário do guichê que levará a família para ver os jogos londrinos de 2012, em alusão às Olimpíadas de 2012 que ocorrerá em Londres, na Inglaterra. Com ar de surpresa, o funcionário atrás do guichê da rodoviária dá o mesmo conselho sobre o melhor modo de pagamento.

As três situações apresentadas pela peça publicitária envolvem decisões de cunho individual: ter cabelo vermelho, manifestar saudades e realizar um programa de lazer com a família. Nas três situações, diante da surpresa inicial, o conselho das(os) funcionárias(os) assinala um único e mesmo limite possível de interferência sobre as escolhas dos clientes: a melhor forma de pagamento. Obviamente que temos consciência de que nenhuma peça publicitária se dispõe a estimular a reflexão, principalmente uma reflexão ética, mas apenas reforçar padrões de consumo e moldar necessidades que supostamente podem ser atendidas pelo consumo de determinados produtos. No entanto, uma vez veiculada a mensagem, nada impede que possamos problematizá-la do ponto de vista ético.

Nas três situações a mensagem é a mesma: a interferência, o conselho, se restringe apenas à melhor forma de pagamento – claro, trata-se de uma propaganda de cartão de crédito. O amigo, que avisa, e que às vezes é bom ter, como anuncia o narrador, não está autorizado a interferir nas escolhas individuais dos clientes – ter cabelo vermelho, expressar saudades e realizar um programa de lazer com a família. Está autorizado apenas a indicar a melhor forma de pagamento, esse é o limite. Ocorre, que as escolhas individuais apresentadas são de caráter muito distinto, baseadas em motivações diversas e com implicações igualmente diferentes.

Ter cabelo vermelho é uma escolha que independentemente do resultado estético diz respeito exclusivamente ao indivíduo. Um amigo mais próximo, pode, no máximo, manifestar sua opinião. Oferecer uma coroa de flores, usualmente ofertada em situações fúnebres, mereceria um esclarecimento por parte da funcionária sobre uma dada tradição cultural, que supostamente é desconhecida pelo “cliente”. No caso do programa familiar, é evidente que trata-se de uma escolha baseada numa informação equivocada e que eticamente exigiria, de qualquer pessoa que tenha a informação correta, uma intervenção, já que a escolha do indivíduo lhe trará prejuízos – financeiros e morais. Nesta última situação, a omissão (o limite da interferência) tem consequências éticas, já que o indivíduo que detém a informação correta torna-se responsável pelas consequências de uma escolha baseada na desinformação. Ou seja, quando as escolhas individuais se colocam no campo da ética não existe neutralidade e tampouco limites estritamente individuais, pois as consequências ultrapassam a individualidade do sujeito.

Em que sentido essas peças publicitárias nos inspiram para tratar a forma diferenciada com que docentes e discentes estão se vinculando ao movimento grevista iniciado no último dia 22/05/2012 em nossa Universidade? No sentido de refletirmos sobre as implicações de escolhas individuais, pois algumas são indiferentes do ponto de vista ético e outras não.

Uma das formas de legitimar o conservadorismo contemporâneo é exaltar as chamadas liberdades individuais. O indivíduo, a subjetividade, a intimidade, o “direito” individual de escolha são valorizados como conquistas e se apresentam, aparentemente, como baluartes de práticas e orientações ideológicas progressistas, democráticas e plurais.

Essa exaltação, no entanto, serve para obscurecer que valores e conquistas no campo da democracia, que inclui a liberdade individual, não estão desvinculadas na sua essência de lutas de caráter coletivo que, forjadas na processualidade histórica, representam disputas políticas que confrontam interesses particularistas e interesses coletivos. No âmbito do conservadorismo contemporâneo, o individualismo, valor máximo da liberdade individual burguesa, aparece como solução para nossa incapacidade “natural” de construção de identidades (de classe, de gênero, étnico-raciais, por exemplo), de reconhecimento de interesses e necessidades coletivas e, consequentemente, da “incapacidade” de construção de respostas coletivas que fortaleçam direitos e não privilégios, pois é isso que a liberdade individual burguesa promove.

É falaciosa a defesa de que a não adesão à greve é um direito individual. O limite e as consequências dessa escolha, sempre individual, já que são os indivíduos que escolhem e agem, não se esgotam no indivíduo, ao contrário, rebatem diretamente no campo de lutas coletivas, no nosso caso, vinculadas à melhoria das condições de trabalho e de ensino nas Universidades Federais.

A greve, legítima e legal, foi aprovada num espaço democrático de participação docente (sindicalizados ou não) e sua recusa deveria ser apresentada nesse espaço. Ao ser aprovada, ela indica a estratégia defendida democraticamente pela categoria docente para enfrentar o descaso com que o Governo Federal vem tratando o Ensino Superior e a comunidade acadêmica. Falar em direito individual de não adesão à greve, travestindo essa escolha como conquista democrática, é o mesmo que dizer que as condições de trabalho e de ensino não têm nenhuma relação com o campo dos direitos, que dizem respeito aos indivíduos e suas escolhas. É o mesmo que dizer que diante da contra-reforma do Ensino Superior – que se materializa em nossa realidade pela precarização do trabalho e do ensino, pela superexploração, pelo sucateamento da infra-estrutura, pela mercantilização da educação e do conhecimento, entre outros aspectos – minha decisão individual é inalienável e tem o mesmo peso que a decisão individual de outros colegas que estão na greve. Como se as consequências fossem apenas individuais e tivessem o mesmo significado, como se as conquistas coletivas não tivessem qualquer relação com minhas escolhas e ações de âmbito individual.

O indivíduo, ao contrário do que tentam afirmar os conservadores de plantão, não existe independentemente do coletivo (do nós). Ao contrário, se na sociedade contemporânea é possível falar e defender liberdades e direitos individuais, isso só foi possível historicamente pela luta coletiva contra o arbítrio e o despotismo.

Do ponto de vista ético todas as escolhas e ações de caráter individual devem ser medidas por suas consequências. Ou seja, a ética supõe uma reflexão crítica sobre os valores, os interesses e os projetos que estou afirmando quando faço determinada escolha e ação. Quando minhas escolhas trazem consequências para o espaço público, para o campo dos direitos (a greve e a educação são direitos), para o fortalecimento de determinado projeto de Universidade (e de sociedade) elas não se limitam à esfera da minha individualidade, elas tem consequências éticas e políticas que afetam uma determinada parcela da sociedade (mais precisamente os trabalhadores).

Aderir à greve representa uma escolha ética de alcance político. Essa adesão expressa uma consciência ética individual que, baseada em informações concretas e corretas sobre a precarização das condições de trabalho e de ensino, procura fortalecer uma luta coletiva que tem por objetivo enfrentar tais condições que me afetam individualmente, mas não só, colocam em risco a formação de gerações inteiras. Aderir à greve representa uma escolha ética na medida em que os critérios, os valores e as motivações para tomá-la ultrapassam minha singularidade e o imediatismo das necessidades individuais e se colocam no campo coletivo da defesa do direito à educação pública e de qualidade.

Relembramos aqui as situações apresentadas nas peças publicitárias mencionadas anteriormente, para ressaltar que as escolhas individuais têm significados e consequências muito diversas, por isso, não é possível ocultar as diferenças substantivas – éticas e políticas – das implicações e consequências coletivas de escolhas individuais sob o mesmo manto “sagrado” da liberdade individual. Mesmo porque, a liberdade não pode ser reduzida à escolha individual, esta última tão moldada socialmente quanto qualquer escolha e muitas vezes orientada por interesses contrários às necessidades livres do indivíduo.

Posso, então, te falar uma coisa? Aderir à greve é demonstrar pública e politicamente a insatisfação com as condições de trabalho e de ensino. É expressar uma consciência ética sobre os rumos da Educação Pública na sociedade brasileira. É expressar uma consciência ética capaz de ultrapassar o imediatismo, o individualismo e o produtivismo que, ao contrário do que preconiza o pensamento conservador em suas expressões contemporâneas, não têm nada de valorização de conquistas individuais de caráter democrático, representam sim um outro projeto coletivo (de Universidade e de Sociedade). Representam um projeto conservador que atende apenas aos interesses privados de uma minoria, que pretende acentuar o caráter elitista, mercantil e subalterno das Universidades Públicas.

Aderir à greve é expressar uma reflexão e uma ação ética coerentes com a responsabilidade coletiva de construção dos direitos de cidadania. É expressar uma consciência ética que se constrói de forma responsável e livre coletivamente. É recusar a indiferença e a falta de solidariedade que marcam as tendências conservadoras da sociabilidade contemporânea. É assumir eticamente a tarefa (pública e coletiva) de formar cidadãos interessados e responsavelmente implicados na construção da Universidade e da sociedade que queremos: mais livre, mais democrática e mais justa!

Comando Local de Greve, Universidade Federal Fluminente, Polo de Rio das Ostras

Publicado por

LASTRO

O Laboratório da Conjuntura Social: tecnologia e território, criado em julho de 1996, no Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano e Regional (IPPUR) da Universidade Federal do Rio de Janeiro, tem, por principal finalidade, a valorização da ação social e dos estudos de conjuntura na pesquisa urbana, no momento em que a reestruturação econômica, apoiada nos fluxos informacionais e em novas orientações administrativas, altera oportunidades sociais, funções metropolitanas e o teor sócio-cultural da vida coletiva. O LASTRO encontra-se organizado em torno de uma proposta de trabalho eminentemente metodológica e transdisciplinar, que inclui o alcance de passagens analíticas, de difícil execução, entre esferas, níveis e escalas da experiência urbana brasileira. No desvendamento de uma metodologia adequada à análise de conjuntura comprometida com a dinâmica urbana, valoriza-se o ângulo da ação, onde outras opções analíticas privilegiam mudanças técnicas e tendências exclusivamente econômicas. Sem abandonar estes caminhos, o LASTRO adota, como seu norte reflexivo, as mutações no tecido social, manifestas através de alterações em representações coletivas dos contextos urbanos e em disputas de oportunidades de integração social. A ênfase na conjuntura corresponde a objetivos analíticos relacionados aos vínculos entre estrutura e ação, aos determinantes especificamente sociais da experiência urbana, à desinstitucionalização de relações sociais e à apropriação social de recursos materiais, técnicos e culturais condensados nos espaços metropolitanos do país

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