BRT Transoeste, solução para o transporte?

Publicado originalmente em Cidades Possíveis, disponível aqui.

Com muito entusiasmo se comemorou esta semana a primeira obra inaugurada com o selo Olímpico no Rio de Janeiro: o BRT Transoeste. A Opinião do Jornal O Globo, sob o título “PARA VALER” disse que “FOI POSITIVA a viagem que testou o corredor expresso Transoeste: estações modernas, ônibus confortável e uma fluidez impensável no trânsito das vias tradicionais”.

Mas a dita via não parece nada tradicional. Ao se olhar a imagem do anúncio da Odebrecht, veiculado nos principais jornais da cidade e que brinda o Rio do futuro, nota-se que a primeira grande obra pronta do novo momento olímpico não veio resolver o problema do trânsito, já que poucos edifícios compõem o cenário e poucas pessoas habitam a região. A via expressa corta terrenos vazios, agora mais valorizados com a nova pista, e que tiveram a sorte de estar justo no caminho do investimento público. Sorte?

A opção por uma cidade expandida

Para se entender a lógica do crescimento urbano do Rio de Janeiro é preciso perceber que essa expansão “saltada”, onde se constrói um prédio e a quilômetros de distância se constrói outro (repare na propaganda da Odebrecht ou faça um sobrevoo pela Transoeste) interessa a grupos empresariais bem específicos: o da construção civil e o setor imobiliário com seus aparatos financeiros. São estes justamente que se beneficiam ao construir autopistas e valorizar seus próprios lotes vazios através do investimento público em infra-estrutura urbana, chegando a influenciar até mesmo o trajeto dessas vias.

É um negócio muito rentável, pois através da atuação do Estado estes grupos se apropriam da riqueza produzida por toda a cidade e que, por isso, deveria beneficiar a todos. A Transoeste foi a primeira grande obra a sair do papel, a quatro anos dos Jogos Olímpicos. Não à toa os setores da construção civil e imobiliário são os maiores doadores de campanhas eleitorais, como será visto mais uma vez em 2012. A atual expansão do Rio de Janeiro não é uma opção natural e não se dá por falta de espaço na cidade, como se costuma pensar. Ela obedece a lógica dos interesses econômicos e da especulação imobiliária.

Essa cidade que está em construção, que não tem ruas para pedestres e que os lugares de encontro costumam ser locais de consumo, beneficia também o deslocamento com automóvel individual. Apesar do BRT Transoeste carregar em seu nome a sigla de um transporte público, a cada pista segregada de ônibus há duas exclusivas para carros. Um modelo rodoviarista que vem se consolidando nas grandes cidades brasileiras desde a segunda metade do século XX, com abertura de túneis e viadutos e que, apesar de ser criticado atualmente, ainda se reproduz sob outros discursos.

A reportagem do Jornal O Dia diz que “com o BRT, os 32km do trajeto Pingo D’Água – Terminal Alvorada, na Barra da Tijuca, foi percorrido em 55 minutos. Antes, levava uma hora e meia. O Túnel da Grota Funda, entre o Recreio e Guaratiba, também foi aberto ao trânsito”. Ou seja, mesmo com o novo sistema de transportes, o trabalhador da Zona Oeste vai gastar duas horas do seu dia no deslocamento casa-trabalho. A abertura de mais um túnel, que por um lado encurta distâncias, por outro amplia o limite urbano da cidade. Mas por que a população de baixa renda tem que morar tão longe? Vale a pena?

Custos socioambientais

Uma cidade expandida precisa de serviços públicos na mesma proporção. No entanto, o custo de se levar saneamento básico, transporte, escolas, etc., a grandes distâncias e de forma espraiada é maior do que em uma área densamente povoada, e lógico que isso fica para depois. Na região da AP5, cortada pela Transoeste e onde se localizam os bairros de Santa Cruz e Campo Grande, apenas metade do esgoto é coletado e só 4% é tratado, o restante é despejado in natura nas baías de Sepetiba e da Guanabara. Isso afeta diretamente a saúde dos moradores e polui a região, contaminado crianças que são as que mais sofrem com doenças diarreicas, levando até a morte.

O saneamento da AP5 está sob responsabilidade da Prefeitura, que licitou para iniciativa privada a administração do setor pelos próximos 30 anos. Está prevista a construção de 19 estações de tratamento, e a meta é que ao fim da concessão seja tratado 90% do esgoto da região. Mesmo se a meta for cumprida, em 2042 o esgoto ainda não estará sendo totalmente tratado. Segundo o Censo, ao progredir no ritmo atual, o saneamento básico no Brasil só será universal em 2070. São as consequências pouco discutidas de se expandir a cidade aleatoriamente.

A opção por uma cidade excludente

O novo túnel da Grota Funda, chamado pelo ex-presidente Lula de “túnel dos pobres”, vai realizar o sonho da classe alta: poder contar com a mão de obra da população de baixa renda mas mantê-la a quilômetros de distância. Durante a sua construção, em 2011, a Comunidade Vila Recreio, que se localizava perto da entrada do novo túnel, foi completamente removida. Era uma comunidade consolidada, com casas em boas condições e serviços públicos regulares. A opção dada aos moradores foi se mudar para Campo Grande, na outra ponta da Transoeste. Na mesma região, Vila Harmonia e Restinga também já não existem, e a Vila Autódromo está ameaçada de remoção.

A realocação forçada da população de baixa renda é uma das faces da especulação imobiliária que atinge toda a cidade. Isso não é apenas efeito do encontro entre o capital internacional e o Rio de Janeiro, trata-se de um projeto de cidade dirigido pelo poder público. A Transoeste ser a primeira grande obra inaugurada, uma via expressa que removeu centenas de famílias pobres e que corta trechos completamente inabitados, é emblemático da lógica de priorização do investimento público no Rio de Janeiro, onde se estimula a periferização e a concentração das famílias de baixa renda longe dos centros.

Está em construção uma cidade cada vez mais segregada com bairros de rico e bairros de pobre, e entre eles lotes vazios sendo valorizados. O BRT Transoeste não é a solução do transporte na cidade e não foi concebido para sê-lo, ele serve primeiro à especulação imobiliária. Entender isso é chave para perceber que os graves problemas sociais que a cidade enfrenta, infelizmente, não estão sendo discutidos nos jornais. O Rio de Janeiro está desperdiçando um momento de grandes oportunidades, que poderia reverter a desigualdade histórica que sempre marcou a cidade, ao deslocar a pobreza para longe. Optou-se por construir o “túnel dos pobres” ao invés de eliminar a pobreza. Uma pena.

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LASTRO

O Laboratório da Conjuntura Social: tecnologia e território, criado em julho de 1996, no Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano e Regional (IPPUR) da Universidade Federal do Rio de Janeiro, tem, por principal finalidade, a valorização da ação social e dos estudos de conjuntura na pesquisa urbana, no momento em que a reestruturação econômica, apoiada nos fluxos informacionais e em novas orientações administrativas, altera oportunidades sociais, funções metropolitanas e o teor sócio-cultural da vida coletiva. O LASTRO encontra-se organizado em torno de uma proposta de trabalho eminentemente metodológica e transdisciplinar, que inclui o alcance de passagens analíticas, de difícil execução, entre esferas, níveis e escalas da experiência urbana brasileira. No desvendamento de uma metodologia adequada à análise de conjuntura comprometida com a dinâmica urbana, valoriza-se o ângulo da ação, onde outras opções analíticas privilegiam mudanças técnicas e tendências exclusivamente econômicas. Sem abandonar estes caminhos, o LASTRO adota, como seu norte reflexivo, as mutações no tecido social, manifestas através de alterações em representações coletivas dos contextos urbanos e em disputas de oportunidades de integração social. A ênfase na conjuntura corresponde a objetivos analíticos relacionados aos vínculos entre estrutura e ação, aos determinantes especificamente sociais da experiência urbana, à desinstitucionalização de relações sociais e à apropriação social de recursos materiais, técnicos e culturais condensados nos espaços metropolitanos do país

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