Ainda sem solução, massacre que motivou golpe contra Lugo completa um mês

Publicado originalmente em Opera Mundi, disponível aqui.

Movimentos sociais e políticos suspeitam de envolvimento da elite fundiária

Movimentos estudantis e campesinos organizaram neste domingo (15/07) um festival em homenagem às vítimas da matança de Curuguaty que completou um mês. A tragédia, que deixou 11 sem terras e 7 policiais mortos, desencadeou o processo de destituição do então presidente Fernando Lugo.

Apesar de ter completado um mês, o massacre na zona rural ainda permanece obscuro e divide a sociedade paraguaia. Enquanto que movimentos sociais apontam para a presença de “infiltrados” que atiraram nas forças policiais, a investigação criminalística do governo responsabiliza os camponeses de terem organizado uma emboscada no local. Mas, é difícil de entender como que a força especial da polícia foi atacada por camponeses sem-terra acampados.

Camponeses observam corpo de campones morto durante o confronto na zona rural de Curuguaty

“Evidentemente, foi um massacre deliberado, programado para produzir o que posteriormente ocorreu”, disse à agência Efe José Rodriguez, dirigente da Liga Nacional de “Carperos”, como são chamados os sem-terras no Paraguai. Segundo ele, a versão dos sobreviventes de Curuguaty é de que o primeiro disparo veio da polícia.

Rodriguez, no entanto, possui outra hipótese. “Os primeiros disparos não vieram nem da polícia nem dos acampados”, disse à Efe, mas sim de “infiltrados” posicionados estrategicamente para desencadear o tiroteio. A versão foi corroborada por um dos membros da Organização de Luta pela Terra que conversou com o Opera Mundi. “Forças dos proprietários de terra estavam infiltradas. Elas entraram para tornar a luta violenta”, disse ele que não quis se identificar com medo da repressão no campo.

O presidente uruguaio José Mujica também responsabilizou setores da elite fundiária pelo massacre na zona rural. Na data específica do confronto, os policiais “foram recebidos a tiros por francoatiradores […] e não necessariamente por camponeses, mas sim por um grupo mais especializado”, afirmou o presidente no dia 7 de julho em seu programa na rádio M24.

“Existe uma falta de interesse em investigar profundamente o que ocorreu lá e os que estiveram por trás deste massacre”, continuou Rodríguez se referindo às investigações conduzidas pelo governo golpista de Federico Franco. Desde que o novo presidente assumiu o posto, as duas comissões independentes criadas pelo seu antecessor para averiguar o caso de Curuguaty foram destituídas.

“A primeira medida deste governo golpista, que está instalado agora no Palácio de López, foi suprimir essa comissão e isso cria grande suspeita”, disse Lugo nesta segunda-feira (09/07) segundo o jornal ABC. “Essa gente que está agora no governo não quer aclarar os fatos em Curuguaty”, acusou.

No dia 20 de junho, ainda como presidente, Lugo criou uma comissão independente do governo composta por paraguaios “notáveis”, incluindo jornalistas, e anunciou que pediria a constituição de um grupo especial junto a OEA para descobrir o que de fato se sucedeu no campo.

Atualmente, com o governo de Franco, apenas a polícia paraguaia que conduz as investigações. Neste sábado, o oficial Gilberto Fleitas, da Seção de Homicídios do Departamento de Investigação de Delitos, afirmou em informe que os camponeses organizaram uma emboscada aos policiais. Segundo ele, os sem-terra cercaram as forças do governo e atiraram entre 10 a 15 metros de proximidade. O promotor do caso, Jalil Rachid, disse nesta sexta-feira (13/07) ter descartado as hipóteses da existência de franco-atiradores em Curuguaty.

Dezenas de camponeses continuam detidos como suspeitos de ter envolvimento com as mortes. Entre eles, estão Marcelo Trinidad e Migual Ángel Correa, presos arbitrariamente no dia da tragédia ao visitar parentes e amigos no hospital. “Agarraram-no em frente ao hospital e o levaram à delegacia, onde o torturaram”, contou ao jornal Ultima Hora a esposa de Marcelo, Zulma Zaragoza. Nesta quinta-feira (12/07), uma manifestação pediu pela libertação dos presos, informou o Ultima Hora.

O novo presidente paraguaio, que sempre se opôs às políticas de reforma agrária propostas por Lugo, declarou nesta quarta-feira (11/07) que a família proprietária de Curuguaty doaria suas terras para a organização de um programa de desenvolvimento rural sustentável. Em seguida, o empresário paraguaio, Jorge Riquelme, negou a informação.

Histórico

Em Curuguaty, uma localidade rural no nordeste do Paraguai, forças policiais tentaram desalojar um grupo de camponeses sem terra que ocupavam uma propriedade de 2 mil hectares, apropriada irregularmente por um empresário e político da ditadura, Blas Riquelme. A polícia interviu e se iniciou um batalha que acabou com 17 mortos (11 camponeses e 6 policiais) e mais de 20 feridos.

Foi a mais grave tragédia desde o fim da ditadura no Paraguai, que tocou um dos temas mais sensíveis no país: a alta concentração das terras e a grande pobreza no campo. No Paraguai, 80% de terras férteis estão nas mãos de 2% da população, concentrando-se no agronegócio de alta produtividade, que gerou um crescimento econômico de 14,5% em 2010, mas ao custo de uma taxa de 39% da população vivendo abaixo dos níveis de pobreza e 19% em situação de pobreza extrema, segundo dados do censo nacional.

A reforma agrária, para acabar com essa dívida antiga com os setores mais humildes camponeses do Paraguai, foi uma das principais promessas eleitorais de Fernando Lugo. Mas, na prática, pouco se fez.

O massacre de Curuguaty foi habilmente explorado pelos líderes do Partido Colorado para vender a ideia de que Lugo foi o principal responsável pela morte de 11 camponeses e seis polícias. “Hoje temos um país sem lei, e o presidente Lugo é o principal responsável”, disse Lilian Samaniego, presidente do Partido Colorado, ao anunciar na noite de segunda-feira (18/06) que seu partido havia decidido pedir o impeachment do chefe de Estado no Parlamento.

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LASTRO

O Laboratório da Conjuntura Social: tecnologia e território, criado em julho de 1996, no Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano e Regional (IPPUR) da Universidade Federal do Rio de Janeiro, tem, por principal finalidade, a valorização da ação social e dos estudos de conjuntura na pesquisa urbana, no momento em que a reestruturação econômica, apoiada nos fluxos informacionais e em novas orientações administrativas, altera oportunidades sociais, funções metropolitanas e o teor sócio-cultural da vida coletiva. O LASTRO encontra-se organizado em torno de uma proposta de trabalho eminentemente metodológica e transdisciplinar, que inclui o alcance de passagens analíticas, de difícil execução, entre esferas, níveis e escalas da experiência urbana brasileira. No desvendamento de uma metodologia adequada à análise de conjuntura comprometida com a dinâmica urbana, valoriza-se o ângulo da ação, onde outras opções analíticas privilegiam mudanças técnicas e tendências exclusivamente econômicas. Sem abandonar estes caminhos, o LASTRO adota, como seu norte reflexivo, as mutações no tecido social, manifestas através de alterações em representações coletivas dos contextos urbanos e em disputas de oportunidades de integração social. A ênfase na conjuntura corresponde a objetivos analíticos relacionados aos vínculos entre estrutura e ação, aos determinantes especificamente sociais da experiência urbana, à desinstitucionalização de relações sociais e à apropriação social de recursos materiais, técnicos e culturais condensados nos espaços metropolitanos do país

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