O Alemão é Mais Complexo, por Vera Malaguti

Publicado originalmente em Fazendo Media, disponível aqui.

As UPPs viraram um macabro consenso, através de um intenso bombardeio midiático. Aliás, como peça publicitária é muito bem feito. Como sempre, nasci gauche na vida, vou me dedicar a desconstruí-la a partir de uma reflexão mais lenta, diferente de tantas que as apoiaram tão rápido. Começo então a pensar sobre o conceito de território, usado à esquerda e à direita para a justificação das velozes adesões. Afinal é em nome da “reconquista do território” que formou-se o uníssono. No Rio de Janeiro existe hoje uma secretaria com o curioso nome de Secretaria Estadual de Direitos Humanos e Territórios.

Para Milton Santos o território seria “um conjunto de lugares e o espaço nacional como um  conjunto de localizações; temos que estar sempre mudando, não obstante o lugar fique o mesmo, em vista do constante rearranjo de valores atribuídos a cada lugar e às atividades presentes” .

“Falar de lugar é trabalhar a noção do inesquecível Milton Santos de localização, ‘momento do imenso movimento do mundo, apreendido em um ponto geográfico, um lugar. Por isso mesmo, cada lugar está sempre mudando de significação, graças ao movimento social: a cada instante as frações da sociedade que lhe cabem não são as mesmas. Não confundir localização e lugar. O lugar pode ser o mesmo, as localizações mudam. E lugar é o objeto ou conjunto de objetos. A localização é um feixe de forças sociais se exercendo em um lugar’.  Estamos então querendo falar a partir de um local e de uma localização: a cidade do Rio de Janeiro. Apreender esse feixe de forças sociais, essa constante alteração nas significações implica a compreensão da discussão temporal na concepção de espaço. Compreender a cidade  ‘como um espaço privilegiado de construção da memória coletiva’, monumentum, sinal do passado” .

Nesta potente vereda Maria Adélia Aparecida de Souza nos ensina que o espaço geográfico é um “sistema indissociável de objeto e ações”, a geografia seria uma filosofia das técnicas e que o território usado precisa ser adotado como uma categoria de análise social. Na geografia das desigualdades de Milton Santos a definição de território é política, trata-se de território usado, espaço banal aonde se podem propor dois tipos de espaços: “os espaços que mandam e os espaços que obedecem, gerados pelo permanente embate entre o par dialético abundância-escassez”. Isso seria o fundamento maior das “geografias da desigualdade”.

O poderio bélico ostensivo continua em frente às crianças das comunidades, mas agora é do Estado. Foto: Reprodução.

Maria Adélia nos fala de outros dois pares dialéticos para caracterizar o território usado: densidade-rarefação e fluidez-viscosidade. “O espaço, por sua vez, também apresenta duas características que se apresentam dialeticamente: rapidez e lentidão, luminosidade e opacidade. Tais características é que geram as novas lógicas na relação centro-periferia, conceitos caros à geografia e revisitados pela obra miltoniana” . A ideia de densidade nos demonstra, por exemplo, maiores ou menores concentrações de serviços, informações e também “a maior ou menor densidade de leis, normas, regras  reguladoras da vida coletiva”, tudo isso “a serviço das forças hegemônicas e do Estado” definindo realidades espaciais, aprofundando desigualdades.

O fato das UPPs estarem restritas ao espaço de favelas, e de algumas favelas, já seria um indício luminoso para desvendar o que o projeto esconde: a ocupação militar e verticalizada das áreas de pobreza que se localizam em regiões estratégicas aos eventos desportivos do capitalismo vídeo-financeiro. É o caso do que Souza exemplifica no Estado que “governa mais para o interesse hegemônico do que para a sociedade brasileira”. Com isso queremos frisar que as UPPs  aprofundam as desigualdades e as segregações socioespaciais no Rio de Janeiro.

Cleonice Dias, líder comunitária da “pacificada” Cidade de Deus, atesta: “Nós que somos da comunidade, sabemos que a UPP está ligada a uma satisfação pública para o Rio de Janeiro e o Brasil de que o Estado tem o controle das comunidades. Querem dizer que haverá segurança porque nós, pobres, estaremos controlados e que podem vir todos os investimentos para os megaeventos”.

É importante esclarecer que o projeto não é nenhuma novidade, faz parte de um arsenal de intervenções urbanas previstas para regiões ocupadas militarmente no mundo a partir de tecnologias, programas e políticas norte-americanas que vão do Iraque à Palestina. No caso, o projeto de Medellín, foi este o paradigma. Governador e Prefeito para lá marcharam, sempre com os sociólogos de plantão, trazendo para o Rio de Janeiro um pacote embrulhado na “luta contra o crime”, sem que se percebesse que era um projeto de ocupação territorial apoiado pelo governo norteamericano contra a histórica guerrilha colombiana que chegou a ter 40% do território colombiano sob seu controle.

Em 2010 lá estive, no seminário El Laberinto de las Violencias, organizado pela Prefeitura e outros parceiros. A avaliação do projeto hoje, em indicadores de ocorrências violentas, já é um rumoroso fracasso. Mas o teleférico está lá, igualzinho ao do Complexo do Alemão. Naquele momento eu apresentei basicamente dois pontos: primeiro, as violências cotidianas de uma cidade são atravessadas pelos grandes movimentos do capital mundial que incidem sobre uma determinada história e memória que são “do lugar”. Não podem ser transferidas automaticamente em conjunturas absolutamente singulares. Segundo, a segurança pública só existe quando ela decorre de um conjunto de projetos públicos e coletivos que foram capazes de gerar serviços, ações e atividades no sentido de romper com a geografia das desigualdades no território usado. Sem isso não há segurança, mas controle truculento dos pobres e resistentes na cidade.

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• Esse texto é parte de um artigo amplo que analisa o processo de instalação das UPPs no Rio. Para ler a íntegra do estudo clique aqui.

(*) Vera Malaguti é socióloga, professora de Criminologia da Universidade Cândido Mendes e Secretária Geral do Instituto Carioca de Criminologia (ICC).

UPP’s: Solução Para a Segurança ou Controle Político das Favelas?

Artigo publicado em Agência de Notícias das Favelas, disponível aqui


SANSÃO, Luiza.
UPPs: solução para a segurança ou controle político das favelas? Graduanda em Comunicação Social pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF).

Este artigo expõe diferenças de abordagem entre os sites G1 e ANF – Agência de Notícias das Favelas sobre a implantação de Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs) em favelas do Rio de Janeiro pelo Governo Cabral (PMDB), com base em matérias publicadas sobre o tema nas duas mídias e a partir da identificação de elementos que expõem seus posicionamentos, presentes em seus discursos, diante da implantação e atuação dos policiais nas comunidades da capital fluminense. Ao final deste trabalho, concluímos que o discurso do site G1 favorece a imagem do governo de Sérgio Cabral, na medida em que publica informações que transmitem aos leitores apenas lados positivos de suas iniciativas, priorizando informações e fazendo uso de expressões que colocam a ação dos policiais como verdadeiramente pacificadora e vantajosa para as comunidades, em detrimento de informações que expõem a desaprovação das UPPs pelas comunidades. Já o site ANF garante espaço para a voz dos moradores das favelas, favorecendo sua expressão e facilitando sua mobilização.

Palavras-chave: UPPs, favelas, grande mídia, comunicação comunitária, política de segurança.

Nova Troca de Idéias – Pacificação (25/03/2011)

A Equipe do Laboratório da Conjuntura Social: tecnologia e território (LASTRO/IPPUR/UFRJ), convida para nova Troca de Idéias a ser realizada no dia 25/03/2011, às 13:00h, com o tema “Pacificação”.

O evento será aberto aqueles que desejarem compartilhar sua experiência e/ou opiniões sobre o tema. Pedimos apenas que preparem sua fala com uma duração máxima de 10 minutos, para que um número razoável de participantes possa se manifestar.

Informações, textos e reflexões sobre a Troca de Idéias que aconteceu 21 de dezembro de 2010 estão disponíveis no site do LASTRO. Basta somente clicar aqui, ou clicar na tag “alemao” no lado direito do website.

Atenciosamente,

Equipe do LASTRO.

Nova dissertação adicionada ao site do LASTRO

A “CHACINA DO PAN” E A PRODUÇÃO DE VIDAS DESCARTÁVEIS NA CIDADE DO RIO DE JANEIRO: “NÃO DÁ PÉ NÃO TEM PÉ NEM CABEÇA. NÃO TEM NINGUÉM QUE MEREÇA. NÃO TEM CORAÇÃO QUE ESQUEÇA”, de José Rodrigues Alvarenga Filho.

Resumo

Nossa pesquisa tem por alvo colocar em análise algumas questões sobre a tríade segurança pública – mídia – produção de subjetividades na cidade do Rio de Janeiro no primeiro semestre do ano de 2007. Para tanto, tomamos a “Chacina do Pan” como um acontecimento analisador para discutirmos: a) como se dá, hoje, na cidade do Rio de Janeiro, a produção de vidas descartáveis, isto é, vidas sem valor; b) como alguns veículos de comunicação de grandes corporações midiáticas cobriram e apoiaram a Chacina no Complexo do Alemão; c) que processos de subjetivação são estes que vem sendo produzidos e que corroboram na produção do medo e da insegurança e, também, em aplausos e apoio a políticas de extermínios das populações pobres cariocas. Nossa pesquisa constitui-se enquanto intervenção, pois acreditamos que o papel do pesquisador não é de apenas anotar, dissertar, entrevistar etc., mas, sobretudo, de intervir. Usamos como caixa de ferramentas, a obra de autores como Foucault, Guatarri, Agamben, Bauman, Wacquant, dentre outros. Fizemos uso de vasto material que compreende: artigos acadêmicos, revistas semanais (impressas e online), sites de informação na internet, livros, documentários, filmes, relatórios, manifestos, laudos, letras de música, poesias, declarações de autoridades etc. A chacina a qual nos referimos foi o resultado da mega-operação policial no Conjunto de Favelas do Complexo do Alemão em 27 de junho de 2007 e que terminou com a morte de 19 pessoas. A operação foi realizada alguns dias antes do início dos jogos Pan-americanos e teve por alvo “apaziguar” o Complexo do Alemão para evitar que supostos “traficantes” atrapalhassem o referido evento. Relatório realizado por peritos designados pela Secretaria Especial de Direitos Humanos do Governo Federal, concluíram que há fortes indícios de exceções sumárias e arbitrárias no Alemão. Através da pesquisa das notícias sobre violência criminal na cidade do Rio de Janeiro em alguns veículos de comunicação, constatamos que o discurso dos mesmos foi um dos fatores que ajudou a alimentar o clima de medo e insegurança na cidade. Além disso, tais discursos cobravam do governo fluminense uma “atitude determinada” para que os jogos Pan- americanos do Rio de Janeiro não fossem prejudicados pela “onda crescente de criminalidade”. A aclamada “atitude” do governo foi protagonizar nova chacina. Concluímos que a “Chacina do Pan” foi, para o grande público, a chacina que nunca aconteceu, pois nos discursos da grande mídia ou de políticos, a mesma foi vendida como: “um marco no combate à criminalidade no país” (Revista Época, 2007, ed. 476).

Disponível por aqui.


Alan Pinheiro fala sobre a realidade do Complexo do Alemão

No dia 26/11/2010, o Rapper Fiell no programa “Conexão Periferia” entrevistou via telefone, ao vivo, Alan Pinheiro, morador do Complexo do Alemão. Nesta entrevista o Alan relata o que realmente estar acontecendo e, enquanto fala, é  interrompido por rajadas efetuada pela BOPE.

Troca de Idéias sobre o Complexo do Alemão, no site da UFRJ

Publicado originalmente no site da UFRJ, disponível aqui.

ELISA FERREIRA – dmvi@reitoria.ufrj.br

Aconteceu nesta última terça-feira, 21 de dezembro, uma “troca de idéias” sobre os últimos acontecimentos no Complexo do Alemão, coordenada pela professora Ana Clara Torres Ribeiro, responsável pelo Laboratório da Conjuntura Social: tecnologia e território da UFRJ (Lastro).

Em clima informal, a professora convidou alguns colegas para discursar ao longo da manhã e depois abriu o debate ao público. O evento, que estava marcado para a Sala do Mestrado do Instituto de Planejamento e Pesquisa Urbana e Regional (Ippur), aconteceu no auditório principal.

Segundo Ana Clara, “essa troca de ideias é uma conversa aberta ao público, por isso não há expositores específicos. É um momento para pensar e refletir, sem desqualificar as ações, pelo contrário”. A primeira discussão levantada foi acerca dos antecedentes dessa “guerra”, como os muros, o choque de ordem, as Unidade de Polícia Pacificadora (UPP’s), a disseminação da ideia de guerra e o predomínio do território vertical. Associou-se  esse conceito ao livro de Yves Lacoste, A geografia serve para fazer a guerra.

Defendendo a discussão histórica dos acontecimentos, Pedro Claudio Cunca Bocayuva, organizador da Economia Solidária – projeto com inovadora alternativa de geração de trabalho e renda, uma resposta a favor da inclusão social –, abordou a questão desde a conjuntura brasileira ainda nos anos do presidente Juscelino Kubitschek (1956-1961).

A estudante de geografia Anniele Freitas, membro do Lastro,  apresentou mapas que identificavam as favelas do Rio de Janeiro e indicavam as que já estão com UPP’s, dando ênfase  ao cinturão de segurança na zona sul carioca.

Um dos pontos altos da “troca de ideias” foi a espetacularização feita pela mídia ao longo da invasão ao Complexo do Alemão, seguindo o conceito de sociedade do espetáculo. Segundo a professora Maria Julieta Nunes, “houve uma sedução através de acontecimentos que remetiam a população aos seriados de TV, fazendo com que não soubéssemos distinguir o real do fantasioso”. Essa declaração foi seguida por comentários gerais de que “o cidadão seria apenas um objeto insignificante, que só poderia assistir aos acontecimentos e, nesse caso, aplaudir”. Além disso, Julieta levantou questões como a integração de todas as forças: Batalhão de Operações Especiais (Bope), Polícia Militar, Exército e Marinha; e o chamado à interação, por meio do disque-denúncia.

Outro assunto posto em discussão foi o crescente turismo no local após a invasão. Segundo Ana Paula de Moura Varanda, organizadora da Economia Solidária, “o turismo aumentou, não só da mídia, estrangeira e brasileira, como da população”. Além disso, Ana Paula abordou a questão da insegurança dos moradores da região com a presença de policias, que ainda invadem suas casas. Para ela, é necessário pensar o futuro com questões como a sobrevivência dos que lá moram, a convivência do tráfico e da polícia e a relação com o Estado.

Paulo Carrano, professor da Universidade Federal Fluminense (UFF),  defende que não há mais uma luta do bem contra o mal, já que está tudo associado: política, tráfico e polícia. Por isso, o que aconteceu foi uma violência contra os pobres, já que não havia  política de segurança contra invasões. “A favela sempre foi o outro da cidade, até assustar a cidade principal com incêndios. Ameaçou a ordem, o governador e os planos políticos dos próximos anos”, afirmou o professor.

Em relação a isso, o professor do Ippur, Carlos Vainer, defende que houve ruptura de pactos e, por isso, não pode ser considerada uma ação planejada. “A principal organização criminosa do Rio de Janeiro está dentro do Estado. Sempre há negociações, como foi em Manguinhos para começar as obras do PAC”, relembra Vainer.

O debate seguiu com discussão acerca das reminiscências da ditadura, quando Ana Clara declarou que “hoje vivemos um discurso oriundo da época da ditadura: ou você está comigo ou está contra mim”. A principal indignação quanto a isso, por parte de todos os presentes, é que essa não seria a democracia por que lutaram, durante os anos 60 e 70, para construir.

Antes de o debate ser aberto para a plateia, Paulo Carrano propôs uma questão para a reflexão de todos: “A sociedade brasileira não se pergunta “onde nós erramos?”, nesse caso, o máximo questionado foi: “onde os policias erraram?”, “não está na hora de envolver Estado e cidadão nesse questionamento?”.